Cega usa telemóvel e viralizou na internet, muito por culpa do desconhecimento

A foto de uma mulher com bengala de deficiente visual a olhar para um telemóvel foi amplamente divulgada na internet, com vários utilizadores de redes sociais sugerindo que ela estaria a fingir ser cega.

Cega usa telemóvel e viralizou na internet, muito por culpa do desconhecimento

A imagem foi postada no Facebook em janeiro com a descrição: “se você consegue ver o que está errado diga que viu o que é”.

A “piada” foi partilhada 33 mil vezes, mas também gerou reações de pessoas com deficiência visual, que tentaram explicar que smartphones podem ser usados por quem não vê.

A jovem ativista Amy Kavanagh, de 29 anos, disse que ficou “brava e desapontada” com o post no Facebook.

Eu fiquei profundamente consternada com o fato de que uma pessoa com deficiência visual possa ser fotografada sem consentimento e humilhada por simplesmente estar a cuidar da própria vida

Kavanagh explica que “nem todas as pessoas com deficiência visual são totalmente cegas” e que a tecnologia as tornou ferramentas de grande ajuda para essas pessoas.

“O meu telefone é uma salvação. Eu uso várias funções de acessibilidade e aplicações para ampliar o zoom. Consigo pedir taxi com ele, usar o GPS ou ligar para o meu parceiro quando estou perdida”, exemplifica.

A jovem que mora em Londres afirma que é comum ver pessoas a olhar ou a apontar para ela. E que já chegou a ser acusada de fingir ser cega enquanto mexia no telemóvel.

“É revoltante que as pessoas usem Siri ou Alexa (dispositivos de controle por voz) todos os dias, mas não consigam entender como uma pessoa cega usa o seu telemóvel.”

Veronica Lewis, de 22 anos, é uma estudante de Fairfax, Virgínia (EUA), que vê muito pouco e depende da bengala para se locomover com autonomia.

Para a jovem, a foto publicada no Facebook é uma “grosseira invasão de privacidade”. Mas reconhece que não se surpreenderia se algo assim acontecesse com ela.

A estudante universitária foi diagnosticada com uma doença ocular quando tinha 3 anos de idade e, desde então, sua visão deteriorou. Ela também tem um problema cerebral que afeta a capacidade de ver.

“O meu telefone ajuda na adaptação”, diz Lewis.

“Eu uso um tipo de óculos inteligentes que utiliza a câmera do meu iPhone para me ajudar a ver coisas. Também uso uma app que me conecta com uma pessoa que ve no caso de eu precisar de auxílio ou ajuda.”

Lewis explica que frequentemente usa o telemovel no autocarro para assegurar que está a ir na direção certa. “As pessoas questionam como eu posso estar a usar uma bengala de cego, se eu olho para o meu iPhone.”

Ellen Fraser-Barbour, de Adelaide, na Austrália, tem deficiência visual e auditiva. Ela afirma que já foi acusada de fingir ou exagerar suas deficiências para obter “privilégios extras”.

“Eu vejo pessoas fazendo comentários como: ‘como você pode ser verdadeiramente cega, se você consegue enxergar o iPhone?”, disse.

A estudante de doutorado conta que a sua vida mudou com o uso de smartphones.

“Antes dos smartphones eu perdia-me constantemente, já que não consigo ver pontos de referência. E, sendo surda, acho difícil pedir direções”, disse.

“Com um smartphone, eu consigo traçar cada movimento meu, acompanhando pela minha aplicação de mapa. Ele diz exatamente onde estou e para onde vou. Deu-me uma independência inacreditável.”

Cegos usam Telemóveis

A ONG britânica Royal Nacional Institute of Blind People (Instituto Real Nacional de Pessoas Cegas) diz que frequentemente recebe relatos de pessoas cegas que enfrentam preconceito e discriminação por simplesmente viver o dia a dia.

O diretor de serviços da ONG, David Clarke, esclarece que pessoas com deficiência visual usam telemóveis, leem Kindle e veem televisão de maneiras diferentes.

“Precisamos educar os utilizadores de redes sociais e a sociedade em geral sobre os danos que posts como essa podem causar. Histórias distorcidas e reações ignorantes podem abalar a confiança de pessoas cegas ou com capacidade reduzida de visão.”

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