Hackers: Conheça a história de Fabian Wosar

A propósit das histórias de Rui Pinto pelo nosso Portugal fora, queremos que conheça Fabian Wosar, que é reconhecido internacionalmente por destruir vírus de computador criados por gangues criminosos para extoquir dinheiro. O trabalho a que se dedica custa-lhe a liberdade que não tem.

Hackers: Conheça a história de Fabian Wosar

“Ransomware” é um tipo de “software” malicioso que bloqueia os computadores e outros dispositivos e impede que os utilizadores acedam aos ficheiros pirateados. Depois, cobra um resgate em criptomoedas (como bitcoins) para que o acesso possa ser restabelecido.

Em vez de roubarem dados ou dinheiro das vítimas, os piratas informáticos por detrás do vírus assumem o controlo dos aparelhos e bloqueiam todos os documentos, imagens, vídeos e emails. Nessa altura, é enviado para o dispositivo pirateado um pedido de resgate, que tanto pode ser deixado numa nota no ambiente de trabalho como apresentado numa janela. O restauro dos ficheiros eliminados pode custar vários milhares de euros.

“Hated and Hunted” (Odiado e Perseguido), da BBC, faz um relato sobre “a perigosa vida do destruidor de vírus de computador que faz inimigos poderosos na Internet”. E expõe três casos de pessoas que foram alvo de “ransomware”: um fotógrafo de casamentos inglês que ficou sem as imagens da mais recente sessão; uma responsável escolar norte-americana que perdeu o detalhado plano financeiro aplicado à instituição; e um alto funcionário de uma empresa de Hong Kong que temeu perder o emprego juntamente com os ficheiros.

Para bem dos afetados, todos os três casos acabaram com final feliz e sem ninguém a ficar mais pobre por isso. E, se assim foi, devem-no só a uma pessoa: Fabian Wosar.

Ameaçado pelos criminosos cibernéticos que combate

Fabian dedica-se, a título pessoal, a ajudar vítimas de “ransomware” de todo o mundo. Um homem que guarda a privacidade para proteger a própria vida, constantemente ameaçada por intimidações externas enviadas pelos criminosos cibernéticos que combate e que o perseguem.

Para o olho desconhecedor, o código de um vírus de computador é apenas uma confusão de letras, números e símbolos. Mas para Fabian Wosar, cada linha é uma instrução clara. Entende cada dígito e ponto da mesma forma que um músico sabe ler uma partitura.

Há cerca de um ano, contou o hacker alemão à BBC, enquanto tentava destruir o mais recente “ransomware” lançado para o mundo cibernético, deparou-se com uma mensagem. Destacando-se entre o código, em letras verdes e gordas, Fabian leu o seu nome lá no meio e uma série de insultos a seguir.

“Fiquei chocado mas também senti algum orgulho, como se tivesse até ficado um bocado convencido. Não vou mentir, foi bom. É sinal que o ‘hacker’ está muito chateado”, admitiu Fabian. “Gastaram tempo e esforço para escreverem uma mensagem sabendo que eu provavelmente ia ver (…) É uma grande motivação para saber que o meu trabalho está a chatear alguns gangues criminosos”.

Depois dessa primeira mensagem, seguiram-se outras tantas, algumas obscenas, ofensivas e ameaçadoras. Há alguns meses, uma distingue-se pela originalidade: “Fabian, por favor, não me destruas! É a minha última tentativa, se destruíres esta versão, vou começar a consumir heroína”. Já dizia o provérbio chinês que “é mais fácil apanhar moscas com mel do que com vinagre”. Mas a chantagem emocional não funcionou.

“Tentaram obviamente fazer sentir-me culpado com este. Mas obviamente que destruí o vírus (…) Surpresa, surpresa. Não pararam e lançaram uma nova versão”, contou.

Vive como eremita

A dedicação ao trabalho espelha-se na vida pessoal de Fabian, que mora numa casa humilde nos arredores de Londres, sem mobília decorativa, pinturas ou quadros a adornar as paredes, sem lâmpadas ou plantas, e quase todas as prateleiras vazias (há uma com uma coleção de jogos da Nintendo e manuais de código).

“Sou uma daquelas pessoas que se não tiver uma razão para sair, não sai. (…) Não gosto de sair de casa, a não ser que tenha de o fazer. Faço quase todas as minhas compras online e vêm entregar-me tudo. Não gosto de fazer muitas coisas por aí, gasto quase todo o meu tempo a trabalhar”, confessou, contando com entusiasmo que criou um jogo de tabuleiro sobre cibersegurança chamado “Hacker: The Cyber Security Logic Game”, no qual admite ser muito bom, embora tenha sempre jogado sozinho.

É num escritório montado num pequeno quarto no andar de cima da casa, que Fabian diz passar 98% do seu tempo. Trabalha, à distância, para uma empresa de cibersegurança, que junta profissionais de vários países. É lá, com as persianas para baixo e o mundo exterior cada vez mais longe, que ganha fãs agradecidos e inimigos odiosos.

Os programas “anti-ransomware” que Fabian e a empresa criam são habitualmente disponibilizados gratuitamente às vítimas de ataques cibernéticos, que só têm de descarregar as ferramentas e seguir as instruções, para recuperarem os ficheiros perdidos.

É precisamente esse trabalho de benfeitor que incomoda os hackers que fazem do “ransomware” o seu ganha-pão: “Nunca estamos completamente certos sobre com quem estamos a lidar, mas a minha convicção é de que já incomodei ou irritei cerca de 100 gangues cibernéticos diferentes nos últimos anos”.

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